Diego Mirhan
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Opinião · · 4 min de leitura

Os maiores data centers de IA vão gerar a própria energia até o fim de 2028

Os maiores data centers de IA planejam passar de 1,5 GW até 2028. Minha aposta é que a rede pública não acompanha e que a energia vira parte do preço do token.

"2028" em letras enormes sobre uma onda de luz azul; o prazo da minha aposta para a energia da IA.

Minha aposta é que, até o fim de 2028, pelo menos um dos cinco maiores data centers de IA do mundo vai operar com usina própria, fora da rede pública. O sinal mais claro apareceu nesta terça-feira (13/10): a Ambrosia Energy anunciou uma fábrica de baterias de 10 GWh no Texas feita para abastecer data centers fora da rede, segundo o TechCrunch.

O que está acontecendo com os data centers de IA

A Epoch AI mantém uma lista pública dos maiores data centers de IA e, na versão de 14 de outubro, o primeiro lugar é o Colossus 2, com cerca de 946 MW de potência de TI em operação, segundo a Epoch AI. Em segundo vem o complexo da Anthropic com a Amazon em New Carlisle, com 910 MW, e em terceiro o Fairwater Atlanta, da Microsoft, com 636 MW.

O que me chamou atenção é a coluna de capacidade planejada. O Fairwater Wisconsin, da Microsoft, aparece com 2.263 MW previstos para 2028, o New Carlisle com 1.925 MW, o Stargate do Novo México, da OpenAI, com 1.750 MW, e o Hyperion, da Meta, com 1.632 MW, de acordo com a mesma lista. O Colossus 2 deve chegar a 1.531 MW em 2027.

Há ressalvas que a própria Epoch faz. Os valores são estimativas, e cerca de 80% delas ficam dentro de um fator de 1,4 do número real. A lista mede capacidade, não consumo, e deixa de fora os data centers abaixo de 100 MW, conforme a Epoch AI.

Do outro lado está a Ambrosia, que saiu do modo furtivo em junho e vende energia para data centers a US$ 100 por MWh, o equivalente a US$ 0,10 por kWh. O CEO Ben Longmier diz que a empresa já é lucrativa nesse preço, o que a deixaria competitiva com as turbinas a gás que os grandes provedores de nuvem planejam usar, segundo o TechCrunch.

Por que acho que a rede pública não vai dar conta

Faço uma conta simples com os dois lados. A primeira usina comercial da Ambrosia, no Oeste do Texas, terá 300 MW de painéis solares e 660 MWh de baterias para entregar 30 MW de energia contínua, com meta de 99,3% de disponibilidade, de acordo com o TechCrunch. Os 30 MW contínuos equivalem a pouco mais de 3% dos 946 MW do Colossus 2.

Ou seja, a solução existe em escala de piloto. A usina piloto tem 200 kW e partes dela operam sem parar há mais de 100 dias, segundo a mesma reportagem. Entre 200 kW e 946 MW há um fator de quase cinco mil, e é por isso que ainda não chamo isso de solução, e sim de sinal.

O que me convence é o formato do problema. Um prédio de mais de 1 GW em 2028 vai precisar de uma ligação à rede que ela não consegue entregar na velocidade em que as empresas querem construir. Quando a fila de conexão atrasa um prédio de bilhões de dólares, é mais barato levar a geração para dentro do terreno do que esperar a rede. Isso é uma leitura minha, e não um dado das fontes.

A fábrica de 10 GWh é a peça que faltava para essa lógica. Segundo Longmier, ela permite construir cerca de 300 MW de usinas por ano nos campos da empresa, com produção plena em dois a três anos, de acordo com o TechCrunch. A reportagem não diz se esses 300 MW medem a potência instalada ou a contínua, e a diferença é de dez vezes.

A previsão: até dezembro de 2028

Aposto que, até dezembro de 2028, pelo menos um dos cinco maiores data centers de IA da lista da Epoch AI vai ter usina dedicada própria, na mesma área ou ligada a ela, como fonte principal de energia. Pode ser gás, solar com bateria ou uma mistura. Não tenho como dizer qual vence.

Também aposto que a energia vai virar um dado de primeira linha nos anúncios dos laboratórios. Hoje o comunicado de um modelo novo fala de benchmark e de preço por token. Acho que, em dois anos, o de um novo campus vai falar de megawatts contratados e de quem os fornece.

Dá para conferir. Em dezembro de 2028, basta abrir a lista da Epoch AI e ver, para cada um dos cinco maiores, como a energia chega. Se a resposta for "pela rede pública, como sempre", errei.

O que me faria mudar de ideia

Dois sinais. O primeiro é a rede acelerar: se as grandes concessionárias passarem a entregar conexões de gigawatt em dois ou três anos, a geração própria perde a razão de existir. Não vejo isso acontecendo, mas não tenho dado para descartar.

O segundo é o custo. A Ambrosia diz que fecha a conta a US$ 100 por MWh, mas essa é uma afirmação da própria empresa, num palco de conferência, e ainda sem usina comercial rodando. Se a primeira usina de 30 MW entregar bem menos do que a meta de 99,3% de disponibilidade, a minha aposta enfraquece.

Pesa também o que a lista da Epoch não mostra. Ela mede potência de TI planejada, e planos de data center atrasam. Se vários dos cinco maiores de 2028 escorregarem para 2030, a pergunta deixa de valer na data que escolhi.

O que isso muda para quem constrói software

O custo da energia vai para dentro do preço do token. Não tenho um número para dizer quanto, e as fontes que li também não trazem. Mesmo assim, acho um erro planejar um produto supondo que a inferência vai ficar sempre mais barata no mesmo ritmo dos últimos anos.

Na prática, isso favorece quem escreve código com o consumo em mente: modelos menores quando a tarefa permite, cache de respostas, e prompts mais curtos. Para quem, como eu, roda IA local com Ollama numa placa AMD, o argumento é ainda mais direto, porque o custo de energia aparece na conta de luz de casa.

Minha posição é que a disputa dos próximos dois anos não vai ser só de quem treina o melhor modelo, e sim de quem consegue ligar o prédio onde ele roda. O resultado dessa disputa vai chegar ao preço que você paga pela API.

Fontes

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